Sentimentos de viajante

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O mundo é, por natureza, um lugar hostil e implacável, e o ser humano, apesar de inteligente, é, no geral, menos ágil, mais frágil, e consequentemente mais vulnerável às forças da natureza que outros animais. A habilidade do ser humano de mudar, individualmente, o meio ambiente, também é bastante limitada. Somos, no entanto, uma das espécies mais bem sucedidas e poderosas da história da evolução biológica. Devemos esta habilidade de sobrevivência às capacidades cognitivas de nossa espécie, que nos permite entender, assimilar e relacionar o mundo à nossa volta, além de conectarmos uns aos outros e ao próprio mundo.

Foi a partir dessas capacidades cognitivas que surgiu o conceito de cultura, o sistema de crenças, hábitos e aptidões adquiridos pelos membros de uma sociedade. Cultura é a maior vantagem evolutiva de nossa espécie pois, com ela, aumentamos exponencialmente nossa capacidade de processar e relacionar informações de forma sistemática. Aumentamos também nossa habilidade de lidar com problemas, pois trabalhando de maneira sincronizada com os demais membros de nossa sociedade, somos capazes de mudar ecossistemas inteiros. Graças à cultura podemos modificar significativamente nosso ambiente físico e social.

Resumindo, a cultura muda a maneira como as coisas funcionam para que a gente não precise mudar. Esse processo de transformação do meio ambiente para que ele se torne mais favorável a nós, é nossa tentativa de fazer do mundo o nosso lar. Criamos vizinhanças, cidades, estados e países, todos com culturas predominantes, para que possamos sentir que pertencemos a um lugar. Por isso, qualquer pessoa que viaja ou imigra tem de lidar, antes de mais nada, com sentimentos de ansiedade, absurdidade e alienação, pois há uma sensação de que o lugar ao qual pertencemos, nosso lar, foi deixado para trás. Mas exatamente o que é um lar?

“O lar é onde o coração do homem cria raízes,” dizia Henrik Ibsen. O que não significa que o lar é, necessariamente, “onde você mora, mas onde as pessoas entendem você”, dizia Christian Morgenstern. Isso faz sentido, afinal, só é natural que o coração crie raízes num lugar onde se é compreendido, mas um lugar que, infelizmente, pode a qualquer momento ser deixado para trás, como na vida de quem viaja ou imigra. O sucesso de uma viagem se deve, portanto, à habilidade do viajante em lidar com a crise existencial consequente das mudanças, e em sua capacidade de levar seu lar dentro de si, para que crie novos lares por onde andar.

O viajante experiencia ansiedade, pois, ao deixar sua cultura para trás, o mundo deixa de ser algo sistemático que funciona de acordo com suas necessidades, e grande esforço torna-se necessário para que as mais simples tarefas possam ser realizadas. Experiencia-se também um sentimento de absurdidade, pois as características do novo lugar não têm significado acoplado, o que torna difícil uma interpretação do mundo ao seu redor. O que resulta é um sentimento de alienação, pois sentimos que não pertencemos ao novo lugar e, consequentemente, deixamos de sentir que somos relevantes ao mundo e às pessoas à nossa volta.

Podemos chamar essa crise existencial pela qual todos os viajantes passam de saudade, pois é justamente de ansiedade, absurdidade e alienação que este sentimento nostálgico é composto. Mas como podemos levar nosso lar dentro de nós? Como podemos criar novos lares em novos lugares? Embora seja relativamente fácil responder a essas perguntas, colocá-las em prática é uma tarefa árdua que requer experiência, persistência e reflexão. Em recente viagem à Islândia – país cujo meio ambiente e cultura são bem diferentes para um brasileiro – tive a oportunidade de refletir sobre essas questões.

Devemos abordar a saudade de maneira prática. O que faz de nosso país, nossa casa, ou seja, nossa cultura, o nosso lar? É uma combinação de fatores: a música que sempre foi predominante em sua casa, o caos organizado em que seu quarto sempre se encontrou, o cheiro do seu incenso predileto, porta-retratos, e assim por diante. Reproduzir essas e outras características da sua cultura é o primeiro passo para a construção de um novo lar. Na Islândia, espalhei CDs e mapas no banco do passageiro, um moletom e outras coisas no banco de trás, e voilà, me senti em casa no meu único “pertence” naquele país tão estrangeiro, um carro alugado.

Até que nosso coração crie raízes no novo lugar, como Ibsen julgou necessário, devemos reproduzir o lar que já conhecemos. Mas claro, sempre aberto à nova cultura, sempre acrescentando ao nosso lar as novas características do novo lugar. Afinal, só assim passaremos a entender as pessoas que fazem parte da nova cultura e vice-versa, o que, de acordo com Morgenstern, é necessário. Tudo isso leva tempo, e com o tempo aprendemos que nossa nova casa não é lá tão diferente do nosso antigo lar, pois no fim, o que há nas diferentes partes do mundo são pessoas vivendo suas vidas da maneira mais apropriada para o lugar onde se encontram.

Embora esta seja sim uma solução para a crise existencial do viajante, ela não é ideal, pois quando o mundo volta a ser aquele lugar familiar e seguro, nós nos apegamos a ele. Para ser feliz de verdade, o viajante precisa reconhecer que o lar é uma construção psicológica, uma maneira de evitar o sentimento de saudade que foi discutido acima. Só assim o viajante poderá fazer do mundo sua casa e seu lar, abraçando, e não evitando, o sentimento de vulnerabilidade ao qual todos que viajam estão sujeitos. Transcender os mais básicos sentimentos da natureza humana é uma tarefa árdua, mas necessária para que um viajante se torne um verdadeiro cidadão do mundo.

Ego mundi civis esse cupio, communis omnium vel peregrinus magis. – Erasmus

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4 pensamentos sobre “Sentimentos de viajante

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